terça-feira, 12 de novembro de 2013

Eu, enquanto pessoa humana e candidato à República de Bulhufas, revelo a todos minha carta na manga! Tremei, adversários! E não esqueçam: amanhã no Frank, na Fernandes Vieira, a Confraria do Cachorro Quente reunir-se-á para o lançamento oficial da minha candidatura, dura porém flexível. Infelizmente meu esculápio achou cauteloso não me locomover até lá, ainda estou vulnerável. Mas eu, enquanto convalescente, estarei de coração com vocês, queridos amigos, enquanto correligionários arbitrários.

A LUA
Lá pelo início dos anos 70, Augusto - filho do meu padrasto Cyro Rangel - e eu, sentados no galpão, tagarelávamos, entusiasmados, pro capataz Juca Perez, a ida dos americanos até à Lua. Ele nos ouvia, atento, segurando a cuia com as duas mãos, acocorado num cepo*. 
Nos olhando serenamente, perguntou: "Mas e o que foram fazer esses paisanos na Lua, que mal lhes pergunte? Alguma cousa de serventia?". 
Nos olhamos e saímos de fininho, deixando o Juca Perez com seu sábio chimarrão, ajeitando a chicolatera* preta no fogo de chão.
Até hoje me faço a mesma pergunta e obtenho algumas respostas, derivadas da minha vivência e capacidade de enrolação.
E assim como o Juca Perez, dá vontade de perguntar para muitos políticos o que foram fazer lá em Brasília? Tantas boas intenções e planos que não vemos acontecer. Ah, mas acontece que não encontramos as coisas como deveriam estar. Sinto a minha parca e escassa inteligência insultada quando ouço desculpas desse naipe.
Administrar recebendo tudo pronto e bonitinho é uma fábula de La Fontaine, linda mas não existe. 
Existem profissionais que são especialistas em organizar o caos. O Celso Roth, por exemplo - e eu não entendo nada de futebol, mas manjo um pouco de administração de pessoas - quando a casa cai chamam quem? O amaldiçoado, retranqueiro, burro Celso Roth. Ai ele chega, ajeita os boleiros, acalma a torcida, limpa a casa e manda ele embora, porque em seguida começa a perder e lá se vai o boi com a corda.
Mas agora a meta é Marte! A Lua já era! Vamos encaminhar alguns personagens do nosso dia-a-dia para a viagem de ida para o Planeta Vermelho - sem conotações ideológicas políticas ou futebolísticas - como futuro presidento de Bulhufas, já criei o Bolsa-Marte, que permitirá ao portador não só partir como por lá ficar.
E la nave va tramitando, tramitando, tramitando, torcedor gaúcho!
Bom almoço e desculpa qualquer coisa, não precisava se incomodar, é pouquinho mas é de coração. Ou apenas decoração.

PORTA LARGA
Bisbilhotando umas fotos da Carla Quiroz e da Cristiane Ortiz Bueno, minhas colegas de Zero Hora, em que aparece o Luiz Augusto, o Lulu, bom colega e amigo, lembrei de uma das tantas pataquadas que fizemos, originadas dentro do Porta Larga, The Large Door, segundo o Antono Carlos Niederauer.
Anos atrás, numa das minhas chegadas de Caxias, lá pelas onze da noite, encontro a sempre alegre reunião dos meus amigos bebuns, na área vip do Porta, com o gringo Rodolfo assando umas costelas e linguiças, faceiro que nem gordo de camiseta.
Em seguida, após o fechamento da edição, começa a chegar o resto do pessoal e revejo mais amigos; todos se abraçam - num determinado momento todos ficam mais sensíveis e afetuosos pelo efeito da cachaça - e as aventuras antigas vêm à tona e lembramos que já fomos muito mais doidos. 
Enquanto devorávamos a pobre vaca assada, alguém sugeriu esticarmos até oclube bailão Ipiranguinha, mais conhecido por Jurassic Park, por motivos óbvios. O único motorizado era o Lulu, com seu bólido Chevettão, mais conhecido por cocomóvel, que o Lulu, numa noite distraída, esqueceu uma menina dentro do carro e foi trabalhar. Só quando voltou que lembrou da moça, mas já era tarde: ela se apertou, não conseguiu sair e aí não preciso contar mais nada. Como é que ele trancafiou a vítima ninguém sabe, ninguém viu. Para tirar o cheiro teve que contratar uma benzedeira, eu acho.
Fomos todos, então, para o Jurassic Park no cocomóvel do Lulu, as bolsas e bagagens todas no porta-malas. Mascote, Airton, o Nelsinho e eu no banco de trás, no da frente uns quatro, que não lembro quem eram, todos elegantemente socados no veículo. Peidar, naquela situação, seria um crime hediondo.
Dentro da alegre casa de bailes e saraus noturnos, enquanto eu conversava com uma moçoila jurássica, o Nelsinho vivia momentos de Don Juan De Marco com a mãe da minha parceira, um amor!
De repente todos resolveram ir embora e foram. Inclusive eu, todos no cocomóvel. Quando descemos pra pegar minha bolsa no porta-malas, o Lulu exclamou, ao ver a pasta do Nelson: "Esquecemos do Nelsinho!". E esquecemos, mesmo, do Nelsinho!
Entrei no meu prédio rindo, imaginando o Nelsinho, com visíveis sinais de embriaguez, na frente do Ipiranguinha, tentando entender o que estava rolando, onde foram parar os parceiros?
Depois soube que o regaste fora exitoso, e o jovem bebum extraviado foi recuperado quase sem nenhum arranhão.
Saudades dessas aventuras coloridas e de vocês, meus doidos prediletos.
Depois eu volto para desejar-lhes uma boa noite. Tiau pra ti.

CHUVA
Paixões amortecidas brotam, espreguiçando-se, nesse dia chuvoso e lento. O manto líquido cobre a cidade e bailam aquelas lembranças, que não querem ficar quietas em seu baú escondido, nos quartos empoeirados da nossa alma. Estou a um passo de me deprimir e mergulhar num pranto silencioso, acariciando as minhas tristezas guardadas, despertadas nessa tarde sonolenta. 
Quando ponho o pé dentro da sala, onde me esperam tristezas e cântaros de lágrimas, a filha do velhote chato do sétimo andar me puxa pelo braço! Não lembrava da Cátia Cilene, tão linda, no auge de seus vinte anos, me convida para entrar enquanto ela procurava o Camilo Mortágua que eu pedira emprestado, no saguão do Edifício Portal. 
Por que ela estava somente com aquele beibidól amarelinho não sei e nem quero saber, mas não seiondevouenfiarasminhasmãos, cruzes, vade retro, sou um rapaz sério. Já imaginou se meto a mão naquele quitute lourinho, com cabelo de massa cabelo-de-anjo, uma tentação, é isso! O demônio me tentando no Monte das Sacaninhas! E que demônia, ela. Meu cérebro disparou e perdi o controle sobre ele! Está tentando me fazer de idiota. Ou não? Acho que sim, mas talvez não, e a eternidade que a Cátia Cilene demorou para trazer o livro foram três minutos e ela voltou, rebolativa e provocante, tenra tentadora aterradora e ali, bem na minha frente, entregando o livro e eu nem lembro o que vim fazer aqui. 
Talvez eu seja um louco, mas vou beijar essa obra prima que saiu das mãos do Senhor, seria um descaso com o trabalho Dele nem ao menos tentar tocar com as minhas duas patinhas dianteiras; e ela continua me olhando, com a mão estendida e o Morte e Água do Camilo sorrindo. Consegui me desvencilhar e correr pro meu apartamento, com sofrimento, nunca mais terei outra oportunidade, sou um bobalhão, medroso. 
E chovia naquela segunda-feira modorrenta, sodomenta, gosmenta e a campainha toca. Era ela, singela donzela vestida com um jeans mais comportado, me trazer uma ficha de leitura que estava dentro do livro e caiu, poderia me ajudar no trabalho do Irmão Mainar Longhi e o Camilo Mortágua. 
Entendi tudo como uma segunda chance que a Cátia Cilene me dava, é isso! Entra, Cátia, Catinha, Catita, bonita, tenho café, Mountain Dew e bolachinhas Maria.
Nem chegamos às bolachinhas Maria, Cátia linda, delicada, amada ficou tão pouco tempo na minha vida, desceu do carrossel e foi embora com seu pai, do Banco do Brasil, pro Rio de Janeiro.
Bueno, vou almoçar depois volto para o convívio com meus amigos maravilhosos. Adoro vocês, tigrada!

PAPAGAIOS
Piadinha infame, pra lá de conhecida, mas vamos a ela:
Uma senhora recebeu, aos seus cuidados, duas papagaias que habitavam um cabaré. Não me perguntem o porquê, é um dogma da piada e pronto.
As papagaias umas gracinhas, mas só sabiam dizer: "Olá, nós somos putas, vamos transar?". E assim, a senhora tão recatada, passava as maiores vergonhas quando recebia as amigas para o chá das cinco ou algum parente aparecia.
Num domingo, depois da missa, conversou com o padre e expôs o seu problemas com as papagaias. O padre, um italiano sereno e compreensivo, disse-lhe que tinha um caso parecido: dois papagaios que oravam, rezavam o terço dia e noite. Quem sabe se juntassem os quatro, eles não conseguiriam recuperar as duas papagaias na base de persistentes orações?
A velhinha topou e, no outro dia, apareceu na igreja com as aves desbocadas e juntou com os papagaios carolas, do padre. Ao verem os bichinhos elas falaram, em uníssono:
- Olá, nós somos putas, vamos transar?
Os papagaios se olharam e um falou pro outro:
- Zenóbio, bota fora esse terço, nossas preces foram atendidas!
Tá, não é grande coisa, mas pra domingo à noite é boazinha.

ASPIRAR
Sim, aspirar. Aspiro o posto do mais alto dignatário de Bulhufas. O Plinio Nunes pronuncia Bolhufas, e eu acho que ele está, gramaticamente, correto. Mas no nosso caso é Bulhufas, haja vista a origem do nome de nossa amada República, que origina-se no ano de 1578, quando a nua - aliás, nau - patavinense Migucha, atracou-se com Porto Bobo, na baía de Escambau. 
Comandada por Cala Bouço, O Capitão Abobrão, a nau pantagruélica Migucha, trouxe para a Nova Terra cavalos, cachorros, mudas de sagu, surdas de tamanco e mais oito deputados federais. Todos com prazo de validade vencido.
Cala Bouço, O Capitão Abobrão, ao ser recebido pelas mocinhas francesas, jovens polacas e por batalhões de mulatas disse: "Não estou entendendo bulhufas, grumetes! Glória aos piratas, às mulatas e às baleias".
Por isso ficou o nome Bulhufas, que foi a pronúncia do Capitão, sacaram? Mesmo porque bolhufas parece peido n'água ou música do Fagner - não o Fagner Piasson - Bolhufas de Amor.
Preciso interromper nosso alegre decálogo - quase me decaloguei todo, agora - pois recebo ligação urgente de Beleléu, deve ser pra confirmar a chegada do carregamento de balelas, que nos enviaram para ajudar na campanha.
Vamos adiante, destemidos e abusados, fortalecendo a cada dia, a nossa chegada iminente ao trono de Bulhufas!
Não esqueçam: quarta próxima será o lançamento definitivo da minha candidatura, no Frank, na Fernandes Vieira. Reservem sua credencial com nosso Departamento de Eventos com Paulo Pruss ou Rick Jardim, na Confraria do Cachorro Quente.
Bom almoço pra todos e todas, amiguinhos encanzinadinhos.

"Eu bebo pra afogar as mágoas, mas aí elas aprenderam a nadar, então mergulhei. Ou marguiei...".
Rolando Caio da Rocha, oitavado no balcão da Dona Maria, pedindo uma losna fiado.