domingo, 12 de janeiro de 2014

FRASCOS
Eu nem lembrava que guardara um pequeno frasco de sensações saborosas e ternas -resquícios de tempos passados - numa catedral submersa no fundo do oceano da minha colorida alma. Assim como não lembro de um monte de coisas que vou guardando e redescobrindo, na medida em que remexo nos mares e continentes do dia-a-dia, por um motivo ou outro. 
É um frasco cor de âmbar, meio arranhadinho mas bonito, que me foi alcançado pela moça de cabelos negros quando entrou elegante, vestindo um brilhante sorriso e uma aura adocicada sublime, perigosamente sublime!
Surpreendido por tanta paz, entendi nem ser necessário falar, somente permitir que sentasse ao meu lado e aquecesse o universo do meu coração.
Seres fluorescentes gravitam por aqui, agora. Vieram com ela. Tem o mesmo timbre, cheiro e brilho de sua dona, a dama encantada que me visitou. O cérebro, a fantasia e o coração se juntam para eternizar a suavidade da noite. Ainda não quero acordar. Depois, depois.
Ficou mais bonito despertar.

Vocês não venham me dizer que não foram fiscais do Sarney em março de 1986, não acreditarei, não senhor! Plano Cruzado a pleno e o povo mandando prender gerente de supermercado e balconista atrapalhado, uma santa inquisição da peonada, e o Sarney nosso herói! Acho que o único que gritou contra foi o Brizola, mas disseram que ele tava mais doido. E a Maria da Conceição Tavares chorava, que coisa mais amada! 
Só pra lembrar vocês de que esse país é um prodígio em criar seus próprios algozes.

BACH
Numa tarde de janeiro, hora do rush, um sujeito abriu a caixa do violino e começou a tocar em pleno metrô, em Washington DC. 
Tocou durante uns quarenta e cinco minutos, ganhou alguns dólares jogados no chapéu por passantes apressados, recolheu suas coisas e foi embora sem muito alarde.
Esse violinista era ninguém menos do que Joshua Bell, um dos maiores músicos do mundo, executando peças de Bach em um Stradivarius 1713, avaliado em três milhões de dólares. Dias antes participara de um concerto no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custaram a singela quantia de U$ 1.000,00!
Não, isso não é uma criação da minha cabecinha estranha, não; foi uma experiência social feita pelo Washington Post sobre percepções, gostos e prioridades.
Em qualquer lugar do mundo os humanos estão superestimando a moldura e esquecendo da tela e do pintor, me parece. Claro que isso pode descambar para uma discussão sociológica e filosófica bem enjoada e eu não tenho a mínima intenção disso, me faltariam argumentos e paciência. 
Mas se trouxermos essa situação ao nosso micro-mundo, veremos essa supervalorização no tênis que custa o valor de um pneu de carro e nas roupas de griffe hipervalorizadas por uma etiqueta. O capitalismo traz ignomínias desse tipo, pois é. 
Nos cabe adequarmos as fantasias consumidoras ao alcance dos bolsos, quase sempre rasos, ainda mais nessa época, embriagados de férias, festas e praias, acordamos de ressaca, em março, com aquela fatura gorda te sacudindo: "Acorda amor, vim te cobrar!". Ou 20 cobrar!
E não adianta fingir que não conhece pois ela tem teu endereço, seu perdulário desmiolado!
Bom almoço pra vocês, pessoal!

IRADO
Cuidar da minha vida e dos meus, pagar contas desde que abro os olhos, votar num cretino que não me roube e que não faça do cara que me assalta com uma pistola russa na frente da minha casa uma vítima da sociedade a quem tenho que pedir desculpas por ser burguês, está ficando cada vez mais difícil pra quem quer apenas sobreviver e manter uma vida digna na base do trabalho e do auto-sacrifício. E quando tu consegue te equilibrar e formar teus filhos com dignidade numa universidade particular para filhos de faraós, vem um boçal e te tacha de capitalista-imperialista-fiadaputa que tem mais é que ser assaltado pelo governo via impostos e pelo proletariado via cidadão em conflito com a lei, razão social do bandido marginal parasita. Me perdoem, mas é de encher a paciência de qualquer ente medíocre, quem dirá dos mais bem formados e informados.
Pronto, já passou, fui dormir.

JAMBO & RUIVÃO
Sinto-me, em cada momento saboreado nos noticiários, privilegiado em estar vivo e poder ver a menina que foi presa pelos malvados e truculentos russos - influenciados pelos imperialistas ianques - desembarcar no aeroporto acolhida por milhares de jovens, ansiosos por uma mensagem sua - dela - e com buquês de brócolis, couves-flores, espinafres e muita abobrinha!
Foi emblemática a sua primeira declaração aos canais da mídia golpista ao criticar a política ambiental do Brasil e o plano fiscal de médio prazo, decretado pelo governo atual, que sacrificará ainda mais o proletariado tupiniquim-micuim.
Após entrevistas e autógrafos, sempre solícita, foi seguida pelos admiradores até a Churrascaria Boi no Espeto, onde degustou mandiocas fritas, repolhos ao leite de soja, berinjelas refogadas ao creme de girassol e uma costela de vaca, a qual só mastigou mas não engoliu.
Precisamos nos adequar aos novos tempos e baixar essa guarda reacionária, nos deixando levar pelos ventos dos novos pensamentos, das ideias arrojadas que esses jovens intrépidos nos trazem de tão longe, para que entendamos que as calotas polares estão derretendo e em Viamão há nove dias não tem água. E entendamos a diferença entre fenômeno natural e esculhambação misturada com incompetência.
Há necessidade de apararmos arestas culturais que tanto mal nos fizeram no passado; já estão sendo elaboradas releituras de livros nefastos que serão reinseridos no contexto atual de nossos jovens, como A Revolução das Bichas, de Georgina Orwell - originalmente escrito em 1946 por um capitalista-burguês a serviço dos imperialistas - que pregava a discórdia e criticava os governantes não-capitalistas, o que hoje é um crime hediondo! Vale a pena ver a nova versão citada acima, e observar na descrição do Grande Irmão - Big Brother - que hoje se faz tão necessário para o controle do proletariado nesses novos dias. Viva o Big Brother! Viva Pedro Bial!
E continuo sem encontrar bife de fígado nos restaurantes que frequento! Parece que ninguém liga muito pro bife de fígado. Num desses restaurantes o garçom se afastou rindo baixinho quando pedi bife de fígado acebolado! Fiquei me sentindo tão bem-vindo quanto uma bactéria numa CTI, pasmem!
Paciência, vou comer um musse de fígado geladinho depois volto! Ganhei um DVD do Jambo & Ruivão, o gatinho maluco e o cachorrão que parece que tem dois tacos de golfe na cabeça, lembram?
Um beijo carinhoso no duodeno de vocês!

PÁREO
Valdir acordou às sete horas do dia sete do mês sete - julho - de 1977! Entrou no carro, pegou a sétima avenida a setenta por hora e em sete minutos estava dentro do Jóquei Clube onde apostou sete dólares no cavalo sete do sétimo páreo, que terminou em sétimo lugar! Como diria o Mussum: Que pênis!
Eu diria que foi uma má coincidência, considerando que até o final do dia ele poderia estar sob sete palmos de terra ou, se cremado fosse, setecentos gramas de pó dentro de uma caneca.
Mas não creio muito em coincidências, salvo aquelas que a gente arma pra se dar bem, tipo descobrir a hora em que a vizinha estonteante do quinto andar sai pra trabalhar e esperá-la na garagem, fazendo de conta que está mexendo no carro e puxar um daqueles papos de bêbado pra delegado, até arrancar o numero dela ou aquela saia verde-pistache linda de morrer!
Mas hoje estamos propensos a acreditar mais na tecnologia do que em coincidências. Toda a vez que uso a expressão 'na minha época' tenho a impressão de remeter os mais jovens à Era Mesozóica, onde os filhos dava algum crédito aos pais, obedeciam os professores e podíamos ler Monteiro Lobato e cantar Atirei O Pau No Gato sem o risco de sermos processados e jogados num calabouço úmido.
Mas vamos lá: 
Na minha época, os professores entravam na sala de aula vindos da secretaria, trazendo uma pilha de provas que enchiam o ar com o característico cheiro de álcool do mimeógrafo.
Mimeógrafo era uma engenhoca com manivela, que imprimia coisas em papel e funcionava à base de álcool. Um colega meu tinha esse apelido, vivia bêbado.
Quando havia trabalho em grupo, nos reuníamos na casa de alguém pra pesquisar e elaborar a coisa. Cada elemento do grupo tinha uma função: a Roseli era a dona da casa e da Enciclopédia Barsa que consultávamos além de líder que estruturava todo o trabalho; a Fátima e o Alberi traziam amostras das folhas aciculares, lanceoladas e alongadas das plantas vasculares; eu desenhava as capas, ornamentava as páginas do trabalho e azucrinava todos até me mandarem calar a boca e Dona Elvira, mãe da Roseli, fazia bolinhos de chuva e nescau pro café.
Normalmente recebíamos elogios da professora Maria Izabel Scalco, nossa professora de Ciências, atingíamos nosso objetivo e, sem querer, aprendíamos sobre parceria e equipe, o que hoje muita gente ganha dinheiro tentando ensinar aos marmanjos MBA* com palestras milionárias. 
Esses dias ouvi um garoto perguntando, quando eu estava na clínica, se uma radiografia não poderia ser retocada no fotoxópi, resolvendo o problema da fratura. Não, não era piada, não, infelizmente!
Hoje é possível fazer tudo à distância, inclusive trabalhos escolares. É copiar-colar-recortar-deletar e pronto, viram que simples? Nem precisa ver a cara dos colegas.
Simples e triste, não interagimos e nos acostumamos com isso, que pena, amigos. 
Tenham todos um bom primeiro almoço de 2014, tigrada feroz!
*Master in Business Administration

ANO NOVO
Ainda no embalo das festas, me embrulho no manto sagrado do arrependimento e faço uma última consulta à minha autocrítica.
As respostas não são lá muito animadoras, considerando que minha autocrítica anda meio esculhambativa, ultimamente, e me manda procurar a beleza interior das pessoas e ser mais amigo da fauna ao redor, sem contar as indiretas pra eu deixar de ser engraçadinho e levar as coisas mais a sério. É sério!
Bom, vou começar com a busca da beleza interior do próximo. Não, não, melhor da próxima, a pobre próxima. Acharei uma namoradinha que tenha uma boca tão enorme que quando bocejar eu exclame: "Que lindo esôfago, amor!".
A fauna já tem o meu carinho e admiração que dedicarei mais ainda às gatas e cachorras. Mesmo com a moral meio roída pelos dentes pontiagudos de lambisgóias e arranhada pelas sirigaitas, consigo manter minha paz interna sem precisar abrir a Espuma de Prata que ganhei do meu amigo secreto, o Prepúcio, mandalete aqui do prédio.
Ainda não consegui descobrir se as lambisgóias e sirigaitas pertencem à fauna ou à flora; algumas comportam-se como vacas, outras que nem trepadeiras, dão em sacadas ou quaisquer lugares em que possam se apoiar. Fica até bonito uma trepadeira verdejante numa sacada, grande sacada!
Mas a pior das recomendações é a da seriedade, essa é demais! Levar as coisas a sério vai ser difícil pois o mundo é uma piada, amigos e amigas! Nós vivemos numa constante e mal-feita piada. Sabe aquela que é ruim e o cara que vai contá-la é pior ainda? Ele ri do começo ao fim da piada e aí tu dá uma risadinha de consolação no final pra evitar que ele conte de novo, pelamordedeus! Pois é, levar a sério tudo isso vai ser jogo duríssimo, mas vamos lá, que hoje tem porco, farofa e lentilha. Melhor: rapidilha, de lenta não tem nada, descuidou, queimou!
Boa tarde, depois retorno ao convívio com vocês, bandalhos e bandalhas queridos.