domingo, 12 de janeiro de 2014

RUÍDOS
Há pouco conversava com um amigo sobre os ruídos que deixamos entrar nas nossas vidas e como lidamos com essas coisinhas muitas vezes enjoadinhas.
Tempos atrás, saía do trabalho e deixava lá os telefones, ramais e seus gritos laborais até o outro dia. Hoje, eles vêm comigo e nem no banheiro me deixam em paz. 
Quem nunca foi interrompido durante um momento íntimo daqueles de tirar o fôlego e a porcaria do artefato começar a te chamar, prenunciando bronca, hein? 
Pior se o numero for o da patroa, seu cafajeste!
Aí temos o bi-bi-bi do microondas, a campainha da porta e o porteiro eletrônico te pedindo um pratinho de salmão ao molho de alcaparras que tu não queira mais.
Se o celular fala, a buzina do demente atrás de ti urra, lembrando que o sinal abriu, seu bocaberta! Se pensarmos com serenidade - sim, é possível, mesmo sóbrios - somos verdadeiras muralhas intransponíveis de sanidade, perceberam isso?
Toda a vez que se inicia um novo ano penso em fugir dessa demência diária à qual fui amestrado desde a mais tenra idade - parece papo de canibal - e me adequei numa boa, salvo alguns pés-na-bunda de moçoilas voláteis e uma que outra rejeição por parte de moçoilas não tão voláteis assim.
Fugir talvez não, mas ficar olhando de longe essa divertida esculhambação numa casinha lá longe, sem o risco de estacionar um carro amarelo rebaixado tocando "tchutchuca levanta a perninha, tchutchuca vou comer tua baranguinha" e outras pérolas do tipo.
Enfim, estou entrando no quinquagésimo quinto ano de vida e nunca sei o que dizer pros amigos além do clássico 'Feliz Ano Novo!' mas vou tentar traduzir o que meu coração tenta, me puxando o braço que nem criança querendo mais uma fatia de bolo.
Gostaria que a natureza fosse mais generosa com os excluídos. Com os excluídos emocionais, aqueles que não tem sensibilidade, que não foram agraciados com a tolerância e o amor aos semelhantes; com os insensatos que passam por cima de muitos para afirmar sua insignificante arrogância. E àqueles que pensam que dinheiro é o fim e não o meio para se chegar a algum lugar.
Acho que ainda não agora, mas futuramente vou querer aquela casinha pintada de azul lá no fundo do campo com cachorros e alguns patos na beira daquela lagoa ali do lado. Se tiver algumas ovelhas e bergamoteiras não fico brabo.
Um abração e que sejamos melhores pra nós e, consequentemente, pros que nos cercam.
Obrigado por serem meus amigos e amigas, vocês são demais!

TECNOLOGIA
Vou contar-lhes uma passagem inesquecível da minha vida de campanha, quando morávamos em Conde de Porto Alegre, distrito de São Borja, meu padrasto Cyro Rangel, a Norma, o Augustinho, filho do Cyro - meu irmão dado pela natureza - e eu.
Num domingo morno de julho fomos visitar dois gêmeos paraguaios que moravam solitos num fundo de campo lá atrás da Fazenda Santa Rita, num ranchinho de capim santa-fé barreado, mais bonito que muita casa de povoeiro! Eram antigos amigos e parceiros de patacoadas do Cyro, que lhes tinha grande estima. 
Os dois beirando os cinquenta anos, indiáticos, barba rala, de uma parecença incrível até nas bombachas arregaçadas nos joelhos e chapéus de copa rasa e aba estreita, tapeados na testa; assim eram Astério e Antero, os paraguaios.
Entre um chimarrão e outro, Cyro presenteou-lhes com um relógio despertador desses antigos, de dar corda, explicando-lhes como funcionava a engenhoca e tal.
Mesmo analfabetos, eram perspicazes e aprenderam ligeirito no más!
No outro domingo voltamos lá, mais por curiosidade em saber como foi a lida deles com o tal relógio do que qualquer outra coisa.
Sentados diante do fogo de chão, no pequeno galpão perto do rancho, Cyro perguntou, enquanto servia mais um mate com a chicolatera* tinindo de quente:
- Mas e daí, Astério, que tal funcionou o relógio?
- Bueno, Cyro, o relojo véio às vez atrasa, às vez adianta, acho que tá meio amolado o tareco!
- Mas perái, Astério, como é que vocês sabem que ele adianta ou atrasa se nem rádio vocês tem aqui?
- É que daqui dá pra ver o trem que vai pra São Borja e passa às duas hora da tarde, lá na curva dos ocalito*, tá vendo? Pois então: tem dias que o trem passa e o relojo véio marca duas e meia, tem dias que o trem passa e ele marca quinze pras duas...
Pura verdade, amigos e amigas! Eles confiavam mais no trem do que no relógio, acreditem!
Me sinto um pouco assim quando toca em comprar alguma coisa pela internet, tenho medo de ser surrupiado, enrolado pelos sacripantas virtuais, e meu filho, o Lobo, ri da minha cautela. Não sei não, prefiro ir na loja até me amansar bem nessa tecnologia. Ou tequenologia!
Bom almoço pra vocês!
*Chicolatera - Chaleira improvisada, normalmente uma lata de azeite Cocinero argentino que tinha alça de arame, pra fazer café e esquentar água pro mate, na beira do fogo de chão.
* Ocalito- Eucalipto

MAO
Ontem, 26, estaria completando cento e vinte anos o Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, sabiam? É claro que não sabiam e isso não afeta a vida de ninguém, mas deve ter havido alguma cerimônia eventual em Pequim. Com pouca gente, porque lá qualquer ajuntamento é temido pelas autoridades pelo risco da procriação. Os casais não podem ter mais do que dois filhos, uma coisa assim. Imaginem se houvesse carnaval lá? A população de chineses teria derramado pelo ladrão há anos e estaríamos cheios de pastelarias e lavanderias por aqui.
Não sou maoista nem tunguista mas nunca vi nenhuma camiseta com a estampa do Mao que nem tem a griffe do Che Guevara. Talvez não tenha o glamour do Che, com a boina, a barba e o olhar perdido no horizonte, talvez. Ninguém quis vestir um revolucionário bolachudo e carequinha e sair por aí; pareceria o Fofão ou a turma da Balão Mágico, que engraçado!
Fico imaginando se as autoridades chinesas descobrem que tu tens mais filhos do que o permitido, o que aconteceria?
- Lamento, mas vamos ter que recolher os dois pequenos, o senhor sabe que só pode ter duas crianças, o excedente ao permitido pertence ao Estado e vamos levá-los para cadastro e reconhecimento!
Mas é outra cultura que nós, ocidentais, achamos desumana mas é a cultura deles e pronto. Na nossa democracia, esculhambada ou não, quase tudo é permitido, inclusive o presidente do Senado pegar um avião militar e ir a uma estética grudar uns fios de cabelo na careca, às nossas custas, sem risco de uma guerra civil.
Não consigo imaginar uma parada gay no Malecón - tipo um calçadão na orla de Havana - por exemplo. Aliás, além de inimaginável, impossível, mas é uma questão cultural dos cubanos e deve ser respeitada.
Quem sabe nos falte um pouco dessas atitudes antipáticas para nos levarmos mais a sério, hein? Botar na cadeia os criminosos já seria um bom começo. Esquecer essa nossa complacência jurídica que insiste em confundir assalto com exercício de cidadania e chamar bandido de cidadão em conflito com a lei.
Falando em direitos humanos, quando sai o resultado do exame dos ossos do Jango? Estou curioso pra saber se os milicos - sempre os milicos! - envenenaram ou não o cara, mas está demorando demais isso. Acho que anunciarão em grande pompa e circunstância como o evento requer, via odiada Globo e Tupi com apresentação de Jota Silvestre e Clóvis Bognay.
Muito quente, comer um mocotó com vinho tinto Cabeça de Touro ou Sangue de Boi, e preparo-me para a extrema-unção. Até já.

MOLIÉRE
Velejando na minha colorida nave insana qual um liquidificador desvairado, às vezes solto o leme só pra ver onde ela vai parar. Quase sempre atraca numa praia deserta e solitária de uma ilha verde silenciosa. 
Mas é eu botar os pés na areia e a praia enche de carrinhos de cerveja, cachaças borbulhantes, vendedores de óculos de plástico e carros rebaixados tocando desaforos tipo "Os muleke são dengoso, levanta a perninha, vem cá tchutchuca linda..." feito apaches e comanches dançando, enfurecidos, ao redor do totem da morte. 
Embarco de volta e sigo meu caminho. Até ficaria, mas os comanches estavam insuportáveis, meu limite de tolerância anda escasso e as nativas eram todas a cara do Gonzagão, melhor partir.
Não sei se essa é a melhor definição de final/início de ano que consegui, não sei, mas estou tentando, vocês estão vendo, não é? Acho importante transformar coisas abstratas em algo palpável pra poder entender melhor, pra conseguir apalpar e, consequentemente acreditar, entenderam? Bom, paciência, vou parar com a enrolação.
Início de ano sempre me parece um álbum de figurinhas que ganhamos pra completar em 365 dias. 
Lembram disso? Eu lembro! Tive álbuns de futebol, de curiosidades até o Reis do Ringue, onde vinham os lutadores de telecatch. Difíceis eram o Fantomas, o Tigre Paraguaio e o Homem-Montanha, esse eu completei com muita paciência e cola Tenaz.
O desafio era completar os álbuns, claro, comprando os pacotinhos na livraria A Preferida, do Seu Luiz Carlos Lopes e trocando as figurinhas repetidas com os colegas, na escola e nas matinés.
Acho que completei o álbum 2013, considerando que eram só figurinhas difíceis, sem nenhuma repetida e A Preferida fechou há anos.
Agora já chega às minhas mãos outro álbum, com menos decalques raros, espero. Promete ser muito colorido e alegre e, se depender de mim, recheado de pândegas e galhofas, pois sem isso perco o tesão de completá-lo. Aliás, nem abro.
Não sei porquê lembrei de uma linda colega da Famecos, num cafezinho entre amigos falou: "Adoro Moliére!" aí falei: "Eu sou louco por mulher, também!". Jamais esquecerei os olhares siberianos que recebi.
Bem feito me meter com intelectuais sem saber quem era o Moliére, caraca! Acho que a partir desse episódio comecei a inventar. 
Jean-Jacques Rosseau era o meu fantasma predileto: "Rosseau falou que o ser único é um ser totalitário!". Ninguém me retrucava e eu passava por devorador de livros, um refinado vigarista cara-de-pau que se divertia.
Bom e belíssimo Natal a todos vocês, meus queridos e queridas amigas, vocês me ajudaram a completar com carinho e paz o difícil álbum de 2013, isso não tem preço!
Meu coração tem cada um de vocês aconchegado aqui, bem aqui nessa alma doida de criança hiperativa.
Beijão pra todos.

CABELOS NATALINOS
Nesses dias me contenho e a aura natalina toma conta do meu ser putrefato me tornando um querubim, quase um ser bondoso e imaculado. Quase.
Sonhei com o Ozzy Osbourne cantando Ave Maria de Gounod e com o Renan Calheiros pegando o avião da FAB - aquele que ele sempre usa pra ir nas quermesses com a Monica Veloso e nos manda a fatura - pra fazer implante capilar na cabeça. Até onde se sabe foi na cabeça, vá que a Monica Veloso queira mais pelos em outras regiões e tal. Ou pelos contrários.
Quando acordei ainda com o Ozzy ecoando nos meus miolos, me dei conta de que o Canalheiros poderia ter feito o implante - que desplante!- via SUS, já que este possibilita a redesignação sexual, ou seja, troca de sexo. Entra Vandergleysson e sai Tabatha Pryscilla. Isso é inclusão social.
Bem que poderia o SUS cobrir prótese peniana, não é? Os brochas também são criaturas excluídas do meio social pois não podem exercer sua plena cidadania de pinto murcho, um absurdo! E, para usar o jargão sociologicamente correto: Portadores de Deficiência.
Imagina o cara ser interpelado pelo cobrador, no ônibus, sobre qual a sua deficiência física e o sujeito, na bucha: "Sou brocha!". Duvido alguém ficar sério com essa pérola!
A partir dessa inclusão dos brochas no meio social, ficam proibidas piadas e quaisquer manifestações jocosas ou discriminatórias sob pena de processo judicial.
Os portadores de repouso peniano eterno seriam agraciados com cotas nos quadros do funcionalismo público onde poderiam coçar o saco, perfeitamente integrados em nossa sociedade burguesa e capitalista.
Mas são apenas sonhos de uma noite de verão, vocês verão. 
Hoje começam as festividades natalinas e o período de engorde no qual nos envolveremos de forma inescapável. Preparem-se para comer aquelas galinhas metidas a besta por um bom tempo, até tu começar a criar uma penugem e ficar parecido com os brusters, chesters e galinhas d'angola que comerás, ó saco sem fundos!
Um magnífico Natal pra todos e que nosso coração seja sempre leve e nosso bolso sempre pesado!
Vou comer um pudim de cachaça e retorno depois com mais novidades natalinas.

É NATAL
Repito uma mensagem engraçada pra todos vocês que é uma oração subordinada composta do povo de Galhofas, ao nordeste de Bulhufas. Os galhofenses costumam entoá-la às vésperas de vesperais que serão jogados em plantas exóticas num ritual estranho pra nós, bulhufenses. Trocando em miúdos eles atiram as lechiguanas nos garaguatás.
Pois bem, vamos à oração natalina dos galhofeiros:
Preocupação
Você só tem que se preocupar com duas coisas:
Se você está doente ou não.
Se você não está doente, não precisa se preocupar.
Se você está doente precisa se preocupar com duas coisas:
Se você vai ficar bom ou não.
Se você vai ficar bom, não precisa se preocupar.
Se você não vai ficar bom precisa se preocupar com duas coisas:
Se você vai morrer ou não.
Se você não vai morrer não precisa se preocupar,
Se você vai morrer precisa se preocupar com duas coisas:
Se você vai pro Inferno ou não.
Se você não vai para o Inferno não precisa se preocupar.
Se você vai pro Inferno
estará tão ocupado cumprimentado os amigos e amigas que não vai ter tempo de se preocupar,
Pra quê se preocupar, então?

CHUVA
Veio a chuva! Embora acanhada que nem bunda de freira, mas veio, isso é o que importa!
Sempre que chove lembro dos meus tempos de pensão da Dona Morena lá na chuvosa Santa Maria, anos 70. Estudava eu no Colégio Santa Maria, maristas rigorosos que me pegaram colocando bitucas de cigarro entre os dedos da estátua do Champagnat, que ficava no meio do saguão no centro de um laguinho, com a mão repousada sobre a cabeça de um menino, uma coisa celestial até eu transformá-lo num odioso fumante.
Não poderia entrar na aula se não levasse uma pessoa responsável para a queixa formal que o Irmão Alfredo Zé Colméia faria, onde já se viu? 
Minha cabeça criminosa urdiu um plano e levei o Gordo Sérgio, um amigo meu que tinha um bar perto da pensão, sujeito de uns vinte e dois anos, tinha cara de bandido e seria o meu tio, irmão da minha mãe.
Na primeira hora da manhã, sentados diante do Irmão Zé Colmeia ouvíamos, pacientemente, ele descrever os horrores que os indefesos professores e colegas sofriam com minhas atitudes infantis que beiravam a demência, tipo encher de confetes as sombrinhas fechadas das coleguinhas, cobrindo-as de coloridos papeizinhos quando abriam, na saída. Ou quando costurei algumas mangas de casacos que ficavam na sala, no recreio. Era divertido ver os malucos desesperados, tentando enfiar as mãozinhas nas mangas: não tinha preço!
O Irmão relatava e o Gordo Sérgio me olhava, enfurecido, me dizendo, entredentes: "Espera só tua mãe saber! Dessa tu não escapa, desgraçado!". Dando-se por satisfeito, o marista encerrou a conversa, recomendando meu tio a não me espancar.
Entrei pra aula e o Gordo voltou pro bar, depois passei lá tomar um goró e dar um pouco de risada.
O marido da Dona Morena, Seu Alcides - apelidado Abutre pela semelhança com o inimigo do Homem-Aranha - guardava umas garrafas de espumante numa geladeira com cadeado. Eu perdia horas tentando achar uma maneira de abrir aquilo e beber as champanhes que ele tinha ganhado não sei de quem que morava não lembro onde. Consegui, mediante pequeno suborno ao Sérgio Lima, ajudante de ordens do Seu Alcides, copiar a chave! O suborno foi uma revistinha de sacanagem com fotos, nada de desenhos: fotos coloridas! 
Abençoados pelos santos do pau-oco, finalmente abrimos e tomamos todas as quatro champanhes numa bêbada madrugada de fim de ano letivo, antes de viajarmos pra São Borja. Durante as férias soubemos que a coisa quase virou caso de polícia e - sabe Deus porquê - meu santo nome era o primeiro na lista dos culpados.
E minha pós-graduação deu-se - entre tantos mestres - com o Quaraí Pujol, que grampeava os lençóis e as cobertas do gringo Felício pra quando ele chegasse borracho não conseguir se cobrir, juntava gente pra rir do cara nas madrugadas. Comia-se ninguém naqueles tempos, então tinha que extravasar, não é?
Bons e velhos tempos. Que bom que temos bons e velhos tempos, hein?
Beijão pra vocês, meus amigos e amigas.